GG: A participação feminina no mundo dos Esports

A ausência de atletas mulheres nos esportes eletrônicos é um tópico que costuma gerar discussões de tempos em tempos, mas é um fato: o cenário competitivo é dominado por homens. O assunto é polêmico e complexo, mas hoje viemos buscar algumas reflexões em relação ao mosaico que compõe o meio competitivo. 

No Brasil, há muito menos mulheres como jogadoras profissionais que homens, mas ao analisar o perfil do gamer brasileiro, através da Pesquisa Game Brasil, percebe-se que nos últimos anos a quantidade de jogadores brasileiros é quase igual entre os gêneros, com a tendência de crescimento do número de jogadoras. Então, quais poderiam ser as dificuldades que as mulheres têm em chegar aos altos rankings e competir?

Os incentivos e a cultura

Já sabemos que para ser realmente bom em um jogo é necessário se dedicar horas e horas nele, realmente estudá-lo e ter a gana de jogar e subir seu ranqueamento: ser melhor que todos os outros jogadores. Não é fácil estar no topo, independente de onde você veio. No entanto, na nossa sociedade é possível notar que fatores sociais afetem mulheres a nem quererem competir para tentar estar no topo. 

Uma pesquisa feita pelos economistas Uri Gneezy e John List compara como a cultura local pode limitar a auto crença das mulheres para que suas escolhas sejam voltadas para locais de mais segurança, em detrimento de escolhas mais ambiciosas. Resumidamente, a pesquisa comparou mulheres de duas tribos: uma com um sistema patriarcal, onde as adolescentes não possuem poderes de escolha no casamento, e outra de um sistema matriarcal, tendo mulheres ocupando cargos de liderança. Então, comparou-se as escolhas das mulheres de ambas as tribos: competir em um jogo simples de arremesso, sozinha, recebendo o salário de um dia de trabalho, ou ganhar três vezes o valor ao competir com outras pessoas. Se empatassem, elas receberiam o mesmo salário anterior, e perdendo, não receberiam nada. Na tribo de organização patriarcal, 50% dos homens quiseram competir contra apenas 26% das mulheres da mesma tribo; já na outra tribo, no mesmo experimento, 54% das mulheres aceitaram competir pela oportunidade de uma premiação melhor, contra apenas 39% dos homens. É importante ressaltar que, sendo uma sociedade matriarcal, os homens não possuem os mesmos direitos das mulheres, tendo inclusive limitações no casamento – no último caso os influenciando negativamente.

Observando o panorama esportivo e sabendo do peso da cultura em relação ao gênero na maioria dos países, será que estamos criando uma sociedade de mulheres competidoras? Se há diferentes tratamentos entre os gêneros em vários âmbitos das sociedades, como isso nos afeta? O assunto hoje é amplamente debatido no mundo dos negócios, na área de trabalho, porém é interessante pensar como esse aspecto social poderia ser um dos fatores que afetam nosso cenário esportivo. 

Também sabemos que o ambiente online pode ser complicado e, em geral, é tóxico, além do próprio ambiente competitivo não ser o mais agradável, mas não é o tópico da discussão de hoje. Contudo, vale ressaltar: para grupo de minorias, os ataques vêm com endereço, cor, gênero, status e afetam especificamente a essência das pessoas, quem elas são.

Ingresso nas Competições

O processo de criação dos talentos femininos já depende de muitos fatores. A caminhada é complicada, porém, o que acontece quando chegamos na porta do profissional? A realidade esportiva está mudando, entretanto, há poucos anos uma presença feminina em uma equipe poderia ser sinônimo de fúria por parte de fãs, subutilização de jogadoras ou oportunidades ainda desiguais – com a maioria das jogadoras sem salários, contratos ou até equipe técnica. 

Além disso, sabemos que as mulheres no mercado de trabalho também enfrentam suas dificuldades. Uma pesquisa do Instituto Patrícia Galvão, “Percepções sobre violência e assédio contra mulheres no trabalho”, aponta que mulheres são mais xingadas e mais excessivamente supervisionadas no trabalho que homens. E é claro que tudo isso irá refletir também no meio de competições esportivas para as mulheres, não à toa, também sendo minoria entre as staffs.

Portanto, não deve-se espantar o aumento significativo nos últimos anos de movimentos de incentivo das mulheres no mercado de esports, frente a tantas dificuldades.

Projetos delas para elas

Diversas Ligas, campeonatos e equipes femininas foram formadas nos últimos anos buscando incentivar mulheres na busca dos seus lugares no mercado. Assim, os projetos buscam unir pessoas com os objetivos de igualar as oportunidades de gênero entre os atletas através de diversas ações de capacitação, networking, incentivos financeiros, até o que deveria ser mínimo: campeonatos para que elas possam brilhar. Os campeonatos femininos são uma alternativa para incentivar meninas, apesar de muitas equipes ainda não pagarem salários e as premiações dos campeonatos estarem longe do ideal. É claro que para que mais meninas tenham segurança de jogar, o financeiro é um dos principais incentivos que deve chegar à participação competitiva. A expectativa de retorno financeiro em um esporte, em uma prática de alto rendimento, é uma realidade para o foco na profissionalização dos atletas de uma forma geral, e não seria diferente para as jogadoras. Como uma parcela significativa das participantes femininas do cenário estão nos campeonatos femininos, investir nesses campeonatos é incentivar as meninas a saber que é possível se manter no mercado esportivo apesar das dificuldades.

Em um mundo ideal, a existência apenas das ligas mistas cobririam todas as necessidades, mas não é a realidade frente aos obstáculos de alguns dos atletas de grupos de minorias. Assim, os projetos são, teoricamente, espaços seguros para o desenvolvimento de um público específico, sem pesos sociais e com incentivos à competição. 

Vamos chegar lá

É verdade que ainda existe muita estrada para ser percorrida e que o cenário já vem mudando. Devagar, mas mudando… seja pela quantidade de meninas que jogam mais hoje, projetos, cada mulher que trabalha no cenário, elogios, pela representatividade que construímos para amanhã: a verdade é que ainda vamos viver muitos sonhos de assistir grandes jogadoras em estádios nas maiores ligas do mundo.

Por Flávia “Yellow Rabbit” Lopes – @ayellowrbt
Escritora e redatora da GG Group – Produtora de Conteúdo

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